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E se uma lista de supermercado te fizesse refletir sobre a vida?

  • Falando em Cultura
  • 13 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura

No dia 1º de novembro, o Multipalco Eva Sopher, em Porto Alegre, recebeu o espetáculo A Lista.


Uma produção que emociona pela simplicidade e pela força de seus diálogos. Escrita por Gustavo Pinheiro e estrelada por Lília Cabral e Giulia Bertolli, mãe e filha na vida real, a peça fala sobre o poder do encontro, da escuta e da empatia em tempos de distanciamento, um isolamento que nasceu na pandemia, mas que ainda resiste, em silêncio, dentro de muitos de nós.

Em cena, Laurita, uma professora aposentada, vive sozinha desde a morte do marido e encontra em Amanda, sua jovem vizinha e voluntária, um espelho inesperado. O que começa como um gesto solidário se transforma em um laço afetivo profundo, em que as diferenças entre gerações se dissolvem diante da necessidade comum de se conectar.

Entre conversas sobre a vida, lembranças e pequenos desafios do cotidiano, há momentos de humor e ternura que aproximam o público, como quando Laurita provoca Amanda dizendo que ela não sabe a diferença entre espinafre e chicória, e o comentário, aparentemente banal, ganha o tom de uma convivência real, divertida, contraditória e cheia de afeto.

Laurita é uma personagem feita de manias, desconfianças e verdades absolutas. Acredita em boa parte das notícias que recebe das amigas no “zap”, e só perto do fim revela, com certo pudor e humor, que achou ter enfisema porque viu os sintomas no Google, fato que Amanda desmente ao ler seus exames e descobrir que ela está saudável. A cena, entre o riso e o alívio, revela como a solidão pode inventar certezas e como o afeto devolve o equilíbrio.

Antes mesmo de a peça começar, Lília Cabral mostrou ao público o mesmo compromisso e delicadeza que empresta à personagem. Chegou ao Rio Grande do Sul rouca e, na noite anterior, havia torcido o pé. Ainda assim, subiu ao palco e, com simpatia, avisou a plateia que talvez mancasse durante a cena em que sua personagem dança. O gesto, simples e generoso, arrancou aplausos e ampliou a admiração, um reflexo de sua entrega e humildade artística.

A encenação aposta em minimalismo e emoção. O cenário é contido, mas a luz e a interpretação preenchem o espaço com intensidade. Cada pausa e olhar carregam significado, e o texto, ao mesmo tempo direto e sensível, abre espaço para o riso, o silêncio e a identificação.

Com atuações inspiradas, Lília e Giulia constroem uma narrativa que é tanto cotidiana quanto simbólica: uma conversa entre mundos, um diálogo entre solidão e cuidado. No Multipalco Eva Sopher, o público respondeu com atenção e carinho, reconhecendo-se na cumplicidade das personagens e na humanidade das pequenas coisas.

Mais do que uma peça sobre vizinhança, A Lista é um lembrete sobre o valor de pertencer, ouvir e partilhar.

É teatro em sua forma mais essencial: o encontro entre pessoas que decidem olhar umas para as outras, mesmo quando tudo parece afastá-las.

 
 

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