Quando a irreverência vira teatro
- Falando em Cultura
- 4 de jan.
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Uma das presenças mais provocadoras da história do teatro brasileiro retorna à cena no espetáculo Nasci pra ser Dercy, apresentado em curta temporada no Teatro Simões Lopes Neto, como parte da programação de verão da capital. A proposta une memória, cena e provocação para revisitar a força de uma mulher que atravessou gerações pela ousadia, pelo humor e pela liberdade com que ocupou os palcos.
A encenação foge da reconstituição biográfica tradicional. Em cena, Grace Gianoukas assume um jogo cênico que transita entre ironia, crítica e emoção, construindo um retrato que valoriza a dimensão artística dessa figura histórica sem cair em simplificações. O resultado evidencia a relevância de sua contribuição para o teatro popular e para a ampliação dos limites da expressão artística no país.
O texto acompanha Vera, uma atriz que chega a um estúdio para disputar um papel em um filme. À medida que lê o roteiro, passa a questionar a forma como a personagem é apresentada, percebendo a insistência em clichês que não traduzem sua complexidade. Criada por uma mãe profundamente admiradora dessa mulher irreverente, Vera cresceu cercada por histórias, gestos e referências que moldaram sua visão sobre liberdade e criação. Essa herança afetiva atravessa a cena e transforma o teste em um embate direto com as tentativas de enquadramento da memória artística. Aos poucos, a atriz deixa de apenas interpretar e passa a ocupar o palco como presença viva, revelando uma mulher à frente de seu tempo, inteligente e dona de si.
Grace Gianoukas sustenta o espetáculo com domínio e intensidade. Sua relação direta com o público conduz a narrativa por momentos de riso, incômodo e reflexão, reafirmando a atualidade do discurso em um contexto que ainda discute censura, limites e o espaço feminino nas artes cênicas.
Inserido na programação oficial do Porto Verão Alegre 2026, Nasci pra ser Dercy contribui para o caráter diverso do evento, que aposta em obras capazes de dialogar com a memória cultural brasileira e, ao mesmo tempo, provocar o olhar contemporâneo.
Mais do que uma evocação do passado, o espetáculo se afirma como uma homenagem em movimento, celebrando uma voz que permanece necessária, inquieta e profundamente atual.
Serviço:
Teatro Simões Lopes Neto
24 Jan - 25 Jan.
Ficha Técnica:
Texto e direção: Kiko Rieser
Atriz: Grace Gianoukas
Voz off: Miguel Falabella
Diretor de Produção: Paulo Marcel
Técnico de luz: Jânio Silva
Técnico de som: Éder Sousa
Contra regra/camarim: Venício Alvarenga
Cenário e figurino: Kleber Montanheiro
Desenho de luz: Aline Santini
Trilha sonora original e arranjos: Mau Machado
Canção-tema “Só sei ser Dercy”: Danilo Dunas e Pedro Buarque
Visagismo: Eliseu Cabral
Assistência de direção: André Kirmayr
Preparação corporal: Bruna Longo
Preparação vocal: André Checchia
Assistência de figurino: Marcos Valadão
Cenotécnica: Evas Carreteiro
Design gráfico: Pierre da Rosa
Mídias sociais: Pierre da Rosa
Fotos: Heloísa Bortz (estúdio) Priscila Prade (cenas/palco) Realização e Produção Nacional: Ventilador de Talentos
Produção associada: Rieser Produções
DURAÇÃO: 80 minutos
Mais informações:
Créditos da imagem: Heloísa Bortz.



